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Nuno Júdice

Lábios que encontram outros lábios num meio de caminho, como peregrinos interrompendo a devoção, nem pobres nem sábios numa embriaguez sem vinho que silêncio os entontece quando de súbito se tocam e, cegos ainda, procuram a saída que o olhar esquece num murmúrio de vagos segredos? É de tarde, na melancolia turva dos poentes, ouvindo um tocar de sinos escorrer sob o azul dos céus quentes, que essa imagem desce de agosto, ou setembro, e se enrola sem desgosto no chão obscuro desse amor que lembro. Nuno Júdice 

Nas tuas mãos distraídas...

Canção do dia de sempre   Tão bom viver dia a dia... A vida assim, jamais cansa... Viver tão só de momentos Como estas nuvens no céu... E só ganhar, toda a vida, Inexperiência... esperança... E a rosa louca dos ventos Presa à copa do chapéu. Nunca dês um nome a um rio: Sempre é outro rio a passar. Nada jamais continua, Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança Das outras vezes perdidas, Atiro a rosa do sonho Nas tuas mãos distraídas... Mário Quintana

O sino da minha aldeia...

O sino da minha aldeia, dolente na tarde calma, cada tua badalada soa dentro da minha alma. E é tão lento o teu soar, tão como triste da vida, que já a primeira pancada tem o som de repetida. Por mais que me tanjas perto quando passo, sempre errante, és para mim como um sonho. Soas-me na alma distante. A cada pancada tua, vibrante no céu aberto, sinto mais longe o passado, sinto a saudade mais perto. Fernando Pessoa 

E se eu fosse um pintor?

Sabe há uns meses atrás um amigo meu morreu e eu fiquei muito triste com a sua morte. Hoje eu sonhei com ele...  O dia seguiu em pura nostalgia. Fica, então, a música  Painter Song,  da Norah Jones. Diz muito sobre o que eu senti hoje, sobre o que eu, ainda, estou sentindo agora.... Ah! Respondendo. Se eu fosse um pintor eu pintaria sonhos... Vou dormir... And I'm dreaming of a place  where I could see your face and I think my brush would take me there...

Há 109 anos nascia Carlos Drummond de Andrade

Já publiquei aqui o meu poema favorito de Drummond:   A Luís Maurício, Infante . Postei, também, outros dos quais muito gosto. Como indica o título, há 109 anos nascia o grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Hoje desejava fazer um post mais elaborado em homenagem ao notável Drummond, entretanto, como estou trabalhando em minha monografia só vai ser possível postar um poema retirado do livro  A Rosa do Povo. Por sinal, um livro muito querido por mim... Vou dedicar este post também post ao meu já falecido amigo Álvaro Carneiro Bastos com quem tantas vezes falei de Drummond e dos "veludos nos ursos". Equívoco Na noite sem lua perdi o chapéu.  O chapéu era branco e dele passarinhos  saiam para a glória, transportando-me ao céu.  A neblina gelou-me até os nervos e as tias.  Fiquei na praça oval aguardando a galera  com fiscais que me perdoassem e me abrissem os rios.  Um jardim sempre meu, de funcho e de coral...

Tanto Amar

Tanto Amar  (Chico Buarque) Amo tanto e de tanto amar Acho que ela é bonita Tem um olho sempre a boiar E outro que agita Tem um olho que não está Meus olhares evita E outro olho a me arregalar Sua pepita A metade do seu olhar Está chamando pra luta, aflita E metade quer madrugar Na bodeguita Se os seus olhos eu for cantar Um seu olho me atura E outro olho vai desmanchar Toda a pintura Ela pode rodopiar E mudar de figura A paloma do seu mirar Virar miúra É na soma do seu olhar Que eu vou me conhecer inteiro Se nasci pra enfrentar o mar Ou faroleiro Amo tanto e de tanto amar Acho que ela acredita Tem um olho a pestanejar E outro me fita Suas pernas vão me enroscar Num balé esquisito Seus dois olhos vão se encontrar No infinito Amo tanto e de tanto amar Em Manágua temos um chico Já pensamos em nos casar Em Porto Rico

Repara que há veludo nos ursos...

Um dos meus poemas favoritos... A Luís Maurício, Infante Acorda, Luis Mauricio. Vou te mostrar o mundo, se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luis Mauricio, não chores mais que um tiquinho. Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luis Mauricio, pranteando mais que o necessário? Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos. Pois que sejam lépidos, Luis Mauricio, que sejam novos e comovidos. E como há tempo para viver, Luis Mauricio, podes gastá-lo à janela que dá para a “Justicia del Trabajo”, onde a imaginosa linha da hera tenazmente compõe seu desenho, recobrindo o que é feio, formal e triste. Sucede que chegou a primavera, menino, e o muro já não existe. Admito que amo nos vegetais a carga de silêncio, Luis Mauricio. Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício. E agora, começa a cre...

Álvaro...

Lembro hoje com saudade do março passado no qual conheci você... do primeiro recado... do primeiro poema... Sempre tive a impressão que eu te conhecia da vida inteira. Algo encantado. Talvez fossem os muitos gostos e preferências que tínhamos em comum... Hoje li todos os poemas que você me enviou, tenho todos eles guardados. Lembrei-me de todas as risadas, das frases, dos versos. Recordei de Luis Mauricio, Infante e da noite em que debulhamos os versos desse nosso poema favorito... Lembrei que como eu, você gostava de Proust, Van Gogh, James Joyce e do biscoito Bono... As boas lembranças, realmente, são esconderijos confortáveis e sei exatamente onde poderei te encontrar quando a saudade apertar... E olha saudade machuca... Tua alma, entretanto, habita tantas coisas que não irei precisar procurar muito... Até os sinos suscitam tua lembrança... Jamais pensei que você um dia seria uma das minhas “notas tristes”... Afinal, você sempre foi tão alegria alegria , tantas...