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Mostrando postagens com o rótulo Vinicius de Moraes

Documentário sobre a vida e obra de Vinicius de Moraes

Tu és a hora...

Monólogo de Orfeu Orfeu: Ai, que agonia que você me deu Meu amor! que impressão, que pesadelo! Como se eu te estivesse vendo morta Longe como uma morta... Eurídice: Morta eu estou. Morta de amor, eu estou; morta e enterrada Com cruz por cima e tudo! Orfeu (sorrindo): Namorada! Vai bem depressa. Deus te leve. Aqui Ficam os meus restos a esperar por ti Que dás vida! (Eurídice atira-lhe um beijo e sai). Mulher mais adorada! Agora que não estás, deixa que rompa O meu peito em soluços! Te enrustiste Em minha vida; e cada hora que passa E' mais porque te amar, a hora derrama O seu óleo de amor, em mim, amada... E sabes de uma coisa? cada vez Que o sofrimento vem, essa saudade De estar perto, se longe, ou estar mais perto Se perto, - que é que eu sei! essa agonia De viver fraco, o peito extravasado O mel correndo; essa incapacidade De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso Que é bem capaz de confundir o espírito De um homem - nada dis...

Para isso fomos feitos

Poema de Natal Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos — Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos — Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio. Não há muito o que dizer: Uma canção sobre um berço Um verso, talvez de amor Uma prece por quem se vai — Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações Se deixem, graves e simples. Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte — De repente nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente. Vinicius de Moraes

Mensagem à Poesia

Não posso Não é possível Digam-lhe que é totalmente impossível Agora não pode ser É impossível Não posso. Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro. Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo. Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso. Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça. Contem-lhe, bem em segredo, que...