Pular para o conteúdo principal

Para isso fomos feitos



Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Feliz Dia de Alfredo

Há 41 anos, o menino de beira rio, dos meio dos campos de Cachoeira, banhista de igarapé, deixava o plano físico. Um dos maiores romancista da literatura nacional do século XX, laureado pela Academia e reconhecido por outros grandes nomes da literatura nacional, que foram seus amigos, conviveram e, até mesmo, duelaram por livros de atas com ele.⁣ ⁣ Nascido em Ponta de Pedras, no Pará, em 10 de janeiro de 1909, criado em Cachoeira do Arari, no Marajó, do mesmo estado, Dalcídio teceu 10 romances conhecidos como o Ciclo do Extremo Norte. Os romances tratam da dura realidade do povo pobre paraense dos chalés e ribanceiras do Marajó e dos subúrbios de Belém, dando voz e protagonismo a "criaturada grande".⁣ ⁣ Apesar da inovadora e brilhante obra, Dalcídio amargou em vida um ostracismo literário gigantesco. Brilhante, mas desconhecido da maioria das pessoas. Sempre falo, todo leitor de Dalcídio sofre um pouquinho com essa dura realidade da obra do autor.⁣ ⁣ Eu mesmo, paraense que so...

Assentamento - Chico Buarque

Assentamento Quando eu morrer, que me enterrem na beira do chapadão -- contente com minha terra cansado de tanta guerra crescido de coração Tôo (apud Guimarães Rosa) Zanza daqui Zanza pra acolá Fim de feira, periferia afora A cidade não mora mais em mim Francisco, Serafim Vamos embora Ver o capim Ver o baobá Vamos ver a campina quando flora A piracema, rios contravim Binho, Bel, Bia, Quim Vamos embora Quando eu morrer Cansado de guerra Morro de bem Com a minha terra: Cana, caqui Inhame, abóbora Onde só vento se semeava outrora Amplidão, nação, sertão sem fim Ó Manuel, Miguilim Vamos Chico Buarque

Benedito Nunes, Magno Sábio

por Amarílis Tupiassu É sempre difícil verbalizar a desmesura. A dificuldade aflorou ante a extensa produção de Benedito Nunes, ao escrever sobre um homem de mente viva, profusa, devotado, serenamente, ao saber, à inquirição do ser em sentido universal. Este foi seu ofício ininterrupto, desde que, ainda quase menino, terminou o então ginasial, entre 1941 e 1948, no Colégio Moderno em Belém. Benedito Nunes e as mais rígidas definições de sábio andam juntos, reiteram altas mentes do Brasil e de outros países, onde floresce sua obra do sábio paraense. Especifico a obra escrita, pois Benedito teve uma obra oral, suas aulas, conferências, debates, entremeados de intervenções momentâneas, espelho de argúcia intelectiva, infelizmente não gravada, a lição do sábio. Ele lega a quem não usufruiu de sua docência, sua escrita tersa, aguda, excelentemente bem urdida que testemunha o rigor, o viço intelectual, admirável saber, sua mente atilada, exemplar. Benedito foi acabado modelo de sabedori...