Pular para o conteúdo principal

Nota de Pesar pela Morte de Dom Ladislau Biernaski



Coordenação Nacional da CPT divulga Nota de Pesar pela morte de seu presidente, ocorrida no dia de hoje, 13 de fevereiro, Dom Ladislau Biernaski. A Nota ressalta que "Os homens e mulheres do campo brasileiro perdem com essa morte um grande aliado, movido pelo espírito de Justiça que se alimentava da palavra e da prática de Jesus, que veio anunciar Boas Notícias aos pobres".

Aos nossos amigos e parceiros
Compartilhamos com vocês nossos sentimentos pela morte de nosso presidente, Dom Ladislau Biernaski, ocorrida no dia de hoje. A CPT Nacional se reconhece neste texto de Jelson de Oliveira, agente da CPT Paraná, que muito bem conheceu Dom Ladislau e com ele condividiu lutas, sofrimentos e vitórias. Os homens e mulheres do campo brasileiro perdem com essa morte um grande aliado, movido pelo espírito de Justiça que se alimentava da palavra e da prática de Jesus, que veio anunciar Boas Notícias aos pobres.

Goiânia, 13 de fevereiro de 2012.

Coordenação Nacional da CPT


MORRE O BISPO DA REFORMA AGRÁRIA

Jelson Oliveira*

Dom Ladislau Biernaski era desses homens apaixonados pela terra. Mãos calejadas e unhas turvas, seu grande orgulho era mostrar a horta que mantinha no quintal de sua residência simples na cidade na qual viveu por muitos anos e da qual foi bispo nos últimos cinco, São José dos Pinhais. Essa paixão pela terra, herdada da família de imigrantes poloneses, fez com que ele transformasse a terra também numa causa evangélica e política. Por ela frequentou acampamentos e assentamentos em nome da Igreja. Muitas vezes deixou mitras e cátedras e foi à praça do povo para celebrar esse compromisso profético com a justiça. À frente da Comissão Pastoral da Terra em nível estadual e nacional, e das demais pastorais sociais que acompanhou, Dom Ladislau foi um amigo e companheiro. Soube como ninguém entender e explicar a missão pastoral da Igreja dos pobres e por esta clarividência, participou de inúmeras mobilizações da luta dos pobres paranaenses no campo e na cidade.
Na missa de sua posse, em março de 2007, na nova Diocese, o bispo do povo declarou que  "no âmbito da justiça é que se louva a Deus". Foi essa certeza que o alimentou em tantos anos de vida e de sacerdócio. Foi ela que o fez recusar os sacrifícios inocentes ofertados a Deus com o sangue dos trabalhadores e trabalhadoras. Talvez por isso, sua comovente simplicidade não o tornou perfeito como homem, mas o fez buscar a justiça como norma. Carregou suas cruzes e sangrou suas próprias feridas. Em seus olhos inquietos e miúdos sempre pudemos encontrar aquela inquietude de um ser inacabado. Teve seus erros, seus dramas e suas noites insones, depois das quais, louvava a Deus com um farto café da manhã na mesa central de sua sala, para o qual muitas vezes contava com a companhia de amigos e companheiros de luta. Partilhou o pão, a paixão e os estorvos da luta.
Seu lugar era à mesa dos pobres, como esperança, e às tribunas dos poderes e das mídias, como advertência. Ouviu com paciência. Amou com radicalidade. Falou com admirável coragem das causas mais difíceis, cujas feridas ainda sangram na geografia da nação. Foi padrinho incansável da campanha pelo módulo máximo para a propriedade da terra no Brasil. Chorou a morte de tantos trabalhadores sem terra país afora. Denunciou o trabalho escravo. Rezou por suas viúvas e abençoou seus filhos. Acreditou incansavelmente na agroecologia, na produção sustentável, no respeito ambiental e no comércio justo. Defendeu a agricultura camponesa com o entusiasmo que trouxe do berço. Caminhou em romarias e marchas. Deu entrevistas. Falou do Evangelho com a cativante palavra da esperança e da vida com a evangélica força do testemunho.
Como tantos outros, Dom Ladislau morreu hoje sem que sua utopia se realizasse. Mas dizem que a melhor forma de homenagear uma vida que se foi é dar continuidade aos seus projetos. Essa é a forma como eu e você devemos lembrar este homem cujo testemunho é, de tão raro, inesquecível; e de tão simples, profético. Nossa teimosia será sempre uma forma de homenagem. Sua memória um compromisso com a vida. 

*Coordenador do Curso de Filosofia PUC-PR e agente da CPT Paraná

Fonte: CPT Nacional

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Feliz Dia de Alfredo

Há 41 anos, o menino de beira rio, dos meio dos campos de Cachoeira, banhista de igarapé, deixava o plano físico. Um dos maiores romancista da literatura nacional do século XX, laureado pela Academia e reconhecido por outros grandes nomes da literatura nacional, que foram seus amigos, conviveram e, até mesmo, duelaram por livros de atas com ele.⁣ ⁣ Nascido em Ponta de Pedras, no Pará, em 10 de janeiro de 1909, criado em Cachoeira do Arari, no Marajó, do mesmo estado, Dalcídio teceu 10 romances conhecidos como o Ciclo do Extremo Norte. Os romances tratam da dura realidade do povo pobre paraense dos chalés e ribanceiras do Marajó e dos subúrbios de Belém, dando voz e protagonismo a "criaturada grande".⁣ ⁣ Apesar da inovadora e brilhante obra, Dalcídio amargou em vida um ostracismo literário gigantesco. Brilhante, mas desconhecido da maioria das pessoas. Sempre falo, todo leitor de Dalcídio sofre um pouquinho com essa dura realidade da obra do autor.⁣ ⁣ Eu mesmo, paraense que so...

As cartas à destinatária inexistente

"O carteiro nunca saberá que a destinatária não existe; que foi sequestrada, torturada e assassinada pela ditadura militar. Assim como o ignorarão, antes dele, o separador das cartas e todos ao seu entorno. O nome no envelope selado e carimbado, como a atestar autenticidade, será o registro topográfico não de uma falha do computador, e sim de um mal de Alzheimer nacional. Sim, a permanência do seu nome no rol dos vivos será, paradoxalmente, produto do esquecimento coletivo do rol dos mortos." B, Kucinski. K. São Paulo: Expressão Popular, p. 17.

Encontro Marcado com Pablo Picasso

© Foto de Brassai. Jacques Lacan (1), Cecile Eluard (2), Pierre Reverdy (3), Louise Leiris (4), Pablo Picasso (5), Zanie Campan (6), Valentine Hugo (7), Simone de Beauvoir (8), Jean-Paul Sartre (9), Albert Camus (10), Michel Leiris (11), Jean Abier (12) e Brassai (13).   No dia 06 de junho de 1944, durante uma reunião para a primeira leitura da peça “O Desejo Pego Pelo Rabo” (“Désir attrapé par la queue”), escrita em 1941 por Picasso, estavam presentes várias personalidades do mundo da cultura. O célebre fotógrafo Gyula Halasz (Brassai) estava registrando o acontecimento. Entre as dezenas de fotos feitas por Brassai naquela noite, uma ficou para a história, aquela em que o fotógrafo húngaro ligou o automático e foi se juntar aos demais. Na foto aparecem Jacques Lacan, Cecile Eluard, Pierre Reverdy, Louise Leiris, Pablo Picasso, Zanie Campan, Valentine Hugo, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Michel Leiris, Jean Abier e Brassai. Naquela noite, Brass...