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Leituras Carnavalescas


Por Gabriel Perissé


A leitura é o meu carnaval. No carnaval da leitura eu pulo a noite inteira, vou ao desfile dos autores, faço das páginas meu enredo e nelas faço meu samba, e com elas faço a minha bateria, o meu batuque.
 
A leitura é a minha fantasia. Meu baile de máscaras, minha chuva de confete e serpentina. Na leitura em clima de carnaval faço com alegria a minha terapia existencial, meu contato com o bem e o mal.
 
Na quarta-feira de cinzas, os olhos inchados de tanto ler, entrarei na fila dos penitentes, para me lembrar que do pó da terra eu vim, e a esse pó voltarei um dia.
 
Que a terra seja leve para quem acreditou nos livros. Jejum, quaresma, temperança...
 
Antes do rito purificador, porém, é só carnaval. Orgia com as palavras, bebendo literatura até cair, gandaia, farra, folguedo, folia, folheando sem parar os mais diferentes livros. Sou carnavalesco na prosa e na poesia!
 
Antes da penitência, viver a incontinência da leitura, leitura até altas horas da madrugada, e durante o dia vou acompanhar alucinado o trio elétrico de escritores conhecidos ou não, afinados ou não, o meu negócio é viver o ócio.
 
Leitura que agita, faz vibrar, requebrar, rebolar, reler, deitar e rolar. Leitura no carnaval, com suas metáforas e alegorias, e vou fazer par com o mestre-sala, seja poeta ou romancista, eu sou mais um passista na avenida das letras.
 
Os livros e eu vamos atravessando o carnaval, a carne se fez verbo, o verbo se fez carne, o sol da meia-noite e a lua ao meio-dia, horários trocados, a rua é passarela, cada paralelepípedo tem sua história, cada história tem seu riso e seu choro. Abram alas que a leitura quer passar!
 
A leitura é lança-perfume que não se pode proibir. Porque lança o leitor na dança, acelera o coração, a imaginação, ritmos, rimas. E o leitor não se cansa. Lança livros para todos os lados. Lança-se ele mesmo em todas as direções.
 
Quem não gosta de ler... bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou não tem fé, não acredita que os livros, fazendo um carnaval dentro de nós, juntam cosmos e caos em nova ordenação.
 
A leitura carnavaliza, mexe conosco, é festa cristã e pagã, sagrada e danada, real e irreal.
 
Vou sair, ninguém me segura, no bloco da leitura!



Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.
 

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