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Passagem

Silêncio... silêncio Dos sonhos antigos, Das manhãs distantes Pássaros voaram Cortaram horizontes E se passaram as cores da madrugada E romperam-se as bordas da noite E os pássaros não mais voltaram... Secaram-se os sonhos antigos. Kerlley Diane Santos

Arre, estou farto de semideuses!

Poema em Linha Recta Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.  E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenh...

Uma vida com sabor de pedra quente

"Em certo sentido, é justamente a minha vida que estou representando aqui, uma vida com sabor de pedra quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras, que agora começam a cantar. A brisa é fresca e o céu, azul. Gosto imensamente desta vida e desejo falar sobre ela com liberdade: dá-me o orgulho de minha condição de homem. No entanto, já me foi dito várias vezes: não há nenhum motivo para estar orgulhoso. Mas creio que há muitos: este sol, este mar, meu coração saltando de juventude, meu corpo com sabor de sal e o imenso cenário onde a ternura e a glória se reencontram no amarelo e no verde. E para conquistar tudo isso que preciso aplicar minha força e meus recursos. Tudo aqui me deixa intacto, não abandono nada de mim mesmo, não me revisto de máscara alguma: basta-me aprender pacientemente a difícil ciência de viver, que equivale muito bem a todo o savoir vivre dos que tentaram desiludir-me." Albert Camus – Fragmento de Núpcias, O Verão  

Quando você me quiser rever...

Olhos nos Olhos (Chico Buarque) Quando você me deixou, meu bem Me disse pra ser feliz e passar bem Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci Mas depois, como era de costume, obedeci Quando você me quiser rever Já vai me encontrar refeita, pode crer Olhos nos olhos, quero ver o que você faz Ao sentir que sem você eu passo bem demais E que venho até remoçando Me pego cantando Sem mais nem porquê E tantas águas rolaram Quantos homens me amaram Bem mais e melhor que você Quando talvez precisar de mim 'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim Olhos nos olhos, quero ver o que você diz Quero ver como suporta me ver tão feliz

Documentário sobre a vida e obra de Vinicius de Moraes

Tu és a hora...

Monólogo de Orfeu Orfeu: Ai, que agonia que você me deu Meu amor! que impressão, que pesadelo! Como se eu te estivesse vendo morta Longe como uma morta... Eurídice: Morta eu estou. Morta de amor, eu estou; morta e enterrada Com cruz por cima e tudo! Orfeu (sorrindo): Namorada! Vai bem depressa. Deus te leve. Aqui Ficam os meus restos a esperar por ti Que dás vida! (Eurídice atira-lhe um beijo e sai). Mulher mais adorada! Agora que não estás, deixa que rompa O meu peito em soluços! Te enrustiste Em minha vida; e cada hora que passa E' mais porque te amar, a hora derrama O seu óleo de amor, em mim, amada... E sabes de uma coisa? cada vez Que o sofrimento vem, essa saudade De estar perto, se longe, ou estar mais perto Se perto, - que é que eu sei! essa agonia De viver fraco, o peito extravasado O mel correndo; essa incapacidade De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso Que é bem capaz de confundir o espírito De um homem - nada dis...

Uma Hora e Mais Outra

“Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a tua tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes ao dia perserverar no câncer, no pó, no costume, no mal dividido trabalho de muitos; não a da comida hora mais grotesca em que dente de ouro mastiga pedaços de besta caçada; nem a da conversa com indiferentes ou com burros de óculos, gelatina humana, vontades corruptas, palavras sem fogo, lixo tão burguês, lesmas de blackout fugindo à verdade como de um incêndio; não a do cinema hora vagabunda onde se compensa, rosa em tecnicólor, a falta de amor, a falta de amor, A FALTA DE AMOR; nem essa hora flácida após o desgaste do corpo entrançado em outro, tristeza de ser exaurido e peito deserto, nem a pobre hora da evacuação: um pouco de ti desce pelos canos, oh! adul...